"(...) Só existe a beleza se existir interlocutor. A beleza da lagoa é sempre alguém. Porque a beleza da lagoa só acontece porque a posso partilhar. (...) A beleza é sempre alguém, no sentido em que ela se concretiza apenas pela expectativa da reunião com o outro. (...) Ainda que as palavras sejam débeis. As palavras são objetos magros incapazes de conter o mundo. Usamo-las por pura ilusão. Deixámo-nos iludir assim para não perecermos de imediato conscientes da impossibilidade de comunicar e, por isso, a impossibilidade da beleza. Todas as lagoas do mundo dependem de sermos ao menos dois. Para que um veja e o outro ouça. Sem diálogo não há beleza e não há lagoa. A esperança na humanidade, talvez por ingénua convicção, está na crença de que o indivíduo a quem se pede que ouça o faça por confiança. É o que todos almejamos. Que acreditem em nós. Dizermos algo que se torna verdadeiro porque o dizemos simplesmente."
VHM - "A desumanização", pág. 27
9 de jun. de 2014
4 de jun. de 2014
El árbol, el río, el hombre
Al árbol ya cortado
No lo claves en tierra
Porque su copa seca
No engañara a los pájaros
Al río que discurre
No le levantes diques
Porque en el aire libre
Cabalgaran las nubes
Al hombre desterrado
No le hables de su casa
La verdadera patria
Caro lo está pagando
El árbol ya cortado
El río que discurre
Y el hombre desterrado
Caro lo están pagando
No lo claves en tierra
Porque su copa seca
No engañara a los pájaros
Al río que discurre
No le levantes diques
Porque en el aire libre
Cabalgaran las nubes
Al hombre desterrado
No le hables de su casa
La verdadera patria
Caro lo está pagando
El árbol ya cortado
El río que discurre
Y el hombre desterrado
Caro lo están pagando
23 de mai. de 2014
Mario Cavalheiro e Cássia Quintana
O meu amor, Juca
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar os tico-ticos...
De vez em quando chega um
E canta
(sei lá se os tico-ticos cantam, mas tudo bem!)
Canta e vai embora
Outro, nem isso,
Mal chega, já se foi.
O último que passou
nem pousou
no meu invisível fio de vida!
No entanto, Juca, o meu amor é sempre o mesmo:
A tecnologia avança e os tico-ticos é que mudam.
minha versão para o "Poeminha sentimental" do querido Mario Quintana.
19 de mai. de 2014
manuscritos em portunhol
Para Martín
acostarme contigo
leer para ti
leer contigo
dormir en ti
despertar
los libros por entre las cubiertas
haremos nuevamente el amor
que me ames encima de tu mesa
cerca de tus futuros manuscritos
que me quieras más, mucho más
que tus futuros manuscritos
que me quieras en el futuro
que el futuro sea hoy todos los dias
18 de mai. de 2014
Nível avançado
Enquanto ela lia um romance, ele ouvia no celular: "Como conquistar a mulher dos seus sonhos - nível intermediário".
Ficaram ali, um do lado do outro, concentrados.
Minutos depois ele olhou pra ela, sorriu e pediu licença. Dirigiu-se à porta de saída do ônibus e nem olhou pra trás. Desceu.
Ela distraiu-se da leitura e pensou: "talvez se ele estivesse no nível avançado..."
Ficaram ali, um do lado do outro, concentrados.
Minutos depois ele olhou pra ela, sorriu e pediu licença. Dirigiu-se à porta de saída do ônibus e nem olhou pra trás. Desceu.
Ela distraiu-se da leitura e pensou: "talvez se ele estivesse no nível avançado..."
17 de mai. de 2014
A força da vida
Tinhas tudo calculado
e a bem dizer encerrado.
Mas o cálculo era um vício,
qualquer momento é início.
E se não sabes de que,
pouco interessa.
Emudecido o porquê,
a vida é essa.
Paulo Hecker Filho
16 de mai. de 2014
14 de mai. de 2014
Livro Aberto - Vitor Ramil
Essa cama imensa consumindo a noite
Esse livro aberto como alegoria
O abajur perdido em sua luz
Essa água quieta desejando a sede
O controle girando no ar
A TV remota em sua fantasia
Uma alegria que não vai passar
Se você vier
Esse livro aberto como alegoria
O abajur perdido em sua luz
Essa água quieta desejando a sede
O controle girando no ar
A TV remota em sua fantasia
Uma alegria que não vai passar
Se você vier
Esse teto frágil sustentando a lua
Esse livro aberto como uma saída
O tapete e seu plano de vôo
O lençol revolto antecipando o gozo
Essa velha casa de coral
Essa concha muda que o meu sonho habita
A paixão invicta que não vai passar
Se você vier
Esse livro aberto como uma saída
O tapete e seu plano de vôo
O lençol revolto antecipando o gozo
Essa velha casa de coral
Essa concha muda que o meu sonho habita
A paixão invicta que não vai passar
Se você vier
Esse rádio doido de olhos valvulados
Esse livro aberto como uma sangria
Esse poema novo sem papel
O papel que cabe aos meus sapatos rotos
O meu rosto que o espelho não vê
A janela imóvel em seu desatino
Esse meu destino que não vai passar
Se você vier
Esse livro aberto como uma sangria
Esse poema novo sem papel
O papel que cabe aos meus sapatos rotos
O meu rosto que o espelho não vê
A janela imóvel em seu desatino
Esse meu destino que não vai passar
Se você vier
Esse quarto agindo à minha revelia
Esse livro aberto como uma indecência
O desejo é um naco de pão
A ilusão exposta em tanto desalinho
Uma tecla insiste em bater
No relógio o tempo é uma saudade tensa
E essa cama imensa que não vai passar
Se você vier
Esse livro aberto como uma indecência
O desejo é um naco de pão
A ilusão exposta em tanto desalinho
Uma tecla insiste em bater
No relógio o tempo é uma saudade tensa
E essa cama imensa que não vai passar
Se você vier
12 de mai. de 2014
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| O POETA POBRE - Carl Spitzweg |
O poeta e o fogo - José Castello
Folheando um livro sobre o Romantismo, deparo-me com "O poeta pobre", óleo sobre tela do pintor alemão Carl Spitzweg (1808-1885). Imediatamente, como se uma mão invisível me agarrase, eu me detenho: simplesmente não posso avançar mais. Por que? O que me segura? Procuro a resposta na própria tela. Onde mais poderia estar? Ela mostra um velho poeta em um sótão miserável que lhe serve de quarto. Um guarda-chuva aberto junto ao teto encobre uma rachadura e o protege da tempestade. Velhos livros,
imensos como cães de guarda, se espalham, em torno dele pelo chão. Com uma pena, que aperta entre os dentes em uma mistura de fraqueza e fúria, o poeta, mesmo deitado e tremendo de frio, continua a escrever.
Mas eis que encontro, enfim, o que me impede de avançar. O fogão tinha se apagado e, para aquecer-se um pouco, o poeta nele queima parte dos poemas que acabou de escrever. Sim, ele imola sua arte para não morrer de frio. A poesia o aquece, a poesia o mantém vivo. Ela é o seu sangue. Ela o salva. Objetos dispersos pelo chão, um móvel de canto, uma garrafa e uma bacia completam o cenário de pobreza. Indiferente, o poeta permanece muito concentrado em seus escritos. Escreve não para se exibir, ou para enriquecer, ou para se consagrar, mas para se salvar.
Surge em minha mente, em contraste, a imagem das galerias urbanas, em que quadros de pintores célebres são negociados como formas de investimento. Ou para
adornar salões requintados, ou ainda _ é verdade _ para corresponder à paixão de algum comprador solitário. A arte como negócio, como objeto de status, ou como gozo. Em nenhum dos três casos, ela se relaciona com a sobrevivência. Mesmo que esses aspectos, de alguma forma, sempre se infiltrem na arte de hoje, mesmo na melhor delas, nada sustentam se não existe a presença do fogo. E o que interessa é este fogo.
Penso em Gaston Bachelard, tão esquecido. Penso, logo depois, nas mega livrarias em que os livros de poemas são cada vez mais largados pelos cantos. Há poucos dias, visitei uma delas, no centro de Curitiba. Percorri as estantes _ de romances estrangeiros e brasileiros, de filosofia, dicionários, auto-ajuda, culinária, livros de viagens. E a poesia? Não consegui encontrá-la. Já tinha na mente a tela de Spitzweg e logo entrevi o poeta pobre sob o vão da escada que leva ao setor escolar, respirando com dificuldades, escrevendo seus poemas não para lucrar com eles, ou para deles gozar, mas para sobreviver. Para queimá-los dentro de si, como alimentos.
Inevitável lembrar de Franz Kafka que, antes de morrer, pediu ao amigo Max Brod que queimasse todos os seus originais. Não era, no caso de Kafka, um pedido de sobrevivência, mas de desistência. Ainda assim, nesse pedido o fogo permanece como imagem central. O fogo como destino da escrita. Trata-se de uma imagem eloqüente para o leitor ideal. Ideal, ou sentimental - como prefiro? O leitor sentimental "queima" junto com o livro que lê. As palavras formam labaredas. As histórias, devaneios, pensamentos, metáforas sopram seu alimento. Elas o aquecem. De novo: elas são sua energia. São a sua vida.
O escritor (o poeta) também queima enquanto escreve. Nesse sentido, não se pode atribuir o gesto do óleo pintado por Spitzweg só à pobreza extrema, embora ela seja evidente. Há algo na tela que ultrapassa as condições materiais _ ou melhor ainda: que é uma resposta às demandas materiais. Queimar, na pobreza ou na opulência, é escrever. Não são só os manuscritos que ardem: o escritor também. Nesse sentido, o guarda-chuva que protege o poeta no óleo de Carl Spitzweg é uma arma com a qual ele se defende das interferências externas, protegendo, assim, o fogo de sua liberdade. Parece meio ridículo que um poeta fale, hoje, em liberdade. Parece estúpido. E, no entanto, ela permanece no centro de sua escrita.
Muito útil pensar na tela de Spitzweg nos dias de hoje. Ela deveria estar exposta à entrada de todas as livrarias das grandes avenidas, ou dos shoppings. Ilude-se quem acredita que ali entra para comprar, para presentear, para colecionar, para se divertir. Cada vez sinto mais repugnância pela ideia da literatura como status, ou como diversão. Livros não são sagrados - vejam os meus, que rabisco sem piedade alguma. Contudo, no mundo em que vivemos, cada vez mais a ideia da literatura como "jóia" (valor)parece mais "razoável". Quanto vale um best seller? Quantos milhões de exemplares vendeu um livro? É o que se deseja saber e mais nada.
A literatura, porém, não garante nada a ninguém: nem saber, nem autoridade, nem mestria. Ela não diverte, mas nos adverte. A advertência que nos faz é não só a
respeito da realidade que nos cabe viver, mas do lugar que nela lutamos para ocupar. Não é fácil viver como o poeta pobre de Spitzweg, não faço aqui a apologia da pobreza. Mas sem alguma miséria interior, algum vazio, algum deserto, ninguém escreve para valer. A pobreza está na origem da criação literária, ou não faria sentido algum escrever.
respeito da realidade que nos cabe viver, mas do lugar que nela lutamos para ocupar. Não é fácil viver como o poeta pobre de Spitzweg, não faço aqui a apologia da pobreza. Mas sem alguma miséria interior, algum vazio, algum deserto, ninguém escreve para valer. A pobreza está na origem da criação literária, ou não faria sentido algum escrever.
Pêssego
ProustSó de ouvir a voz de Albertine entrava emOrgasmo. Se diz que:O olhar de voyeur tem condições de phalo(possui o que vê)Mas é pelo tatoQue a fonte do amor se abre.Apalpar desabrocha o talo.O tato é mais que o verÉ mais que o ouvirÉ mais que o cheirar.É pelo beijo que o amor se edifica.É no calor da bocaQue o alarme da carne grita.E se abre docementeComo um pêssego de Deus.Manoel de Barros, em "Poemas Rupestres"
11 de mai. de 2014
10 de mai. de 2014
"(...) um leitor se constrói naquele primeiro andar (afeto). Ali estão os maiores predicados da sua construção. Não é feito de papel ou bytes. Não é de livro ou de tela. São de carne, corpo, alma e começa com desejo e olhar até continuar com prolongamento de sólida subjetividade.(...) Enquanto isso, que venham as histórias, não importa de onde nem como. E siga em riste a velha tecnologia do livro feito de olhar e de gente, folheado nas vozes de filhos e pais lembrados para sempre."
Livro "A infância através do espelho" - Livro impresso ou digital: o bem e o mal? Pág. 72, 73. Celso Gutfreind
9 de mai. de 2014
5 de mai. de 2014
Poema de despedida
Não saberei nunca
dizer adeus
Afinal,
só os mortos sabem morrer
Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser
Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo
Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos
Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca
Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo
Mia Couto
3 de mai. de 2014
FALAR
A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.
A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.
FALAR - Ferreira Gullar
Livro: "Em alguma parte alguma"
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.
A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.
FALAR - Ferreira Gullar
Livro: "Em alguma parte alguma"
2 de mai. de 2014
queria dizer-te
Queria dizer-te que não sei
que há qualquer coisa
talvez desperdiçada talvez não
Tu sentiste-a disseste que era como
qualquer uma outra coisa que
esqueci
A tarde era talvez já fosse tarde
e a noite não vinha
─ como sempre
Queria dizer-te mas não sei se agora
me saberás ouvir
maria alberta menéres
os mosquitos de suburna
1967
via http://canaldepoesia.blogspot.com.br/
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