“Limpa tuas vestes e, se possível, que todas as peças de roupa sejam brancas, pois isso ajuda a conduzir o coração ao temor de Deus e ao amor a Deus. Se é noite, acende muitas luzes, até que tudo fique claro. Toma então em tuas mãos a pena, tinta e uma mesa e lembra que estás destinado a servir a Deus na alegria do coração. Agora começa a combinar umas poucas ou muitas letras, a permutá-las e combiná-las até que teu coração se aqueça. Então atenta para os movimentos delas e para o que podes extrair delas ao movê-las. E quando sentires que teu coração já está aquecido e quando vires que pelas combinações de letras podes apreender novas coisas que por ti próprio ou pela tradição humana não terias como saber e quando portanto estiveres preparado para receber o influxo do poder divino que flui para o teu interior, então põe todo o teu pensamento mais verdadeiro a imaginar em teu coração o Nome e Seus anjos exaltados como se eles fossem seres humanos sentados, ou em pé, à tua frente.”
Abraham Abulafia, na abertura da biografia Clarice,
Abandono a mim mesmo na pequena tentação de querer encontrar sentido pra tudo. E é nesse jogo, de quem ainda se caça, que dualizo sentimentos que me fazem rir e chorar. Diante de circunstâncias que solapam meu senso de suficiência, poderia eu optar por rotas alternativas. É desnecessário afligir-se por tão pouco, diria uma parte de mim. Quando a ouço, penso mesmo em desistir das reflexões e me refugiar em qualquer expediente que anestesie meu inconformismo. Caso houvesse apenas essa voz, decidiria, sem hesitar, afogar a perplexidade num café preto e bolachas de água e sal. Com ares de triunfo, a primeira decisão vai maturando. Até que vem o outro lado de mim – esse avesso que também é parte do todo – e susssurra, Não desista tão cedo. Pronto. O café esfriará e as bolachas serão destinadas ao relento. Estreará mais uma batalha. Na arena, os meus eus. Quem não carrega mais de um dentro si, atire a primeira pedra.
Geralmente nessas horas um terrível orgulho entra em cena tentando convencer-me de algo que beira a estupidez: a necessidade de se expor dúvidas que os outros julgam importantes. Assim, penso rapidamente em formular questões envolvendo criacionismo ou evolucionismo; o amor de Deus e a existência do mal; a justiça divina e o Holocausto; como sabotar a surrada Teologia da Prosperidade; homossexualismo é algo genético ou comportamental; a liberdade humana e o determinismo; capitalismo ou socialismo; a juventude e o engajamento político; e toda sorte de discussões que com facilidade incitam muito mais a violência do que a afetividade. Que o diga qualquer pessoa que foi pisada em nome de uma verdade absoluta. Nem de longe considero inúteis tais debates. Meu exercício de piedade tem sido não desprezar minhas pequenas dúvidas. Dar a elas igual atenção e importância. Nisso, meu mais novo dilema é com as palavras.
Não sei o que exatamente pensar sobre as palavras. Tenho convicção de toda insuficiência delas. Cedo ou tarde, tudo o que digo e escrevo será posto à prova pela convivência. Palavras bonitas traduzindo pensamentos quase perfeitos não resistem à qualidade da vida. Nenhum pensamento, por mais puro que seja, consegue alterar o curso de uma história. O pensamento, e consequentemente as palavras, são impotentes diante da complexidade da vida. A poesia é bonita, as palavras bem encaixadas entontecem, mas dificilmente estas coisas poderiam ser mais eficazes que um gesto. Concordo com a Clarice Lispector, Não muda nada. Escrevo sem esperança de que alguma coisa que eu escreva possa mudar o que quer que seja. Todo pensamento é morto; e se faz vida apenas quando toca uma pele.
Em contrapartida, é inegável a redenção que um texto me oferece. Um texto é minha catástrofe particular. Não posso ser ingrato com as carícias que um texto me faz. Nas entrelinhas vou ressuscitando. Vários autores, amigos, desconhecidos, famosos, sem imaginar, me arrebatam à saciedade. Quando a vida parece pouca, são as palavras que me completam. Sou salvo pela metáfora. Existem textos que me deixam nu; palavras que me assaltam qualquer tipo de reação. Crio mundos e fantasio lugares. O livro do Apocalipse diz de uma cidade que desce dos ares. É isso o que procuro num texto: trazer pra perto a lonjura, receber o céu inteiro dentro do peito. A mesma Clarice não me deixa só nessa dúvida entre dois pensamentos, Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida.
É o milagre do livro: quando eu, perdido, encontro-me a mim mesmo.
Discussão ingrata, paradoxo eterno. Não sei o que dizer das palavras. Condeno-as e suplico para não me deixarem só. Continuo acreditando na arte do encontro. O beijo entre o dito e o vivido desponta no horizonte como minha pretensão final e duradoura. A união dos mundos requer coragem. Necessito de ousadia pra me aperfeiçoar nessa combinação. É possível a poesia mudar o mundo? Deveríamos desprezar toda a beleza das palavras em nome de um ativismo cinza, pálido e sem gosto? Creio que não. Com teimosia, acredito na salvação pelo verbo. Na salvação que se dá no exato momento em que palavra e pensamento se fazem carne. Coisas de palavra e pele: o pão pode não ser somente um pão ao mesmo tempo em que a morte pode ser anunciada com sensibilidade…algo do tipo, Isto é o meu corpo que será dado em favor de vocês.
Laion Monteiro
O Laion sempre me emociona com o que escreve. Não nos conhecemos pessoalmente, mas ele já entende meu coração. Tem uma sensibilidade assustadora e uma forma especial de transmitir o que sente através da escrita. Tem amor e respeito pelas letras e principalmente por seus leitores. Acho que é nisso que está o "encanto". Esse é o segredo.
Obrigada meu amigo querido por compartilhar comigo tua paixão pela palavra.
Nenhum comentário:
Postar um comentário